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Querido diário, maldito proprietário.

Author: Henrique Alvez / Marcadores: ,


Querido diário...

Hoje foi mais um dia ordinário e desprovido de pasmos, porém deveras fecundo, pois tudo correu como o esquematizado.

É por isso que lhe digo (Por mais que um caderno não possa absorver bons conselhos): Planejar é uma arte e versá-la é o ato mais sensato que pode ter um ser humano.

Pois bem, se virar a página saberá o que pretendia que se incidisse hoje, por isso irei direto à execução de meu grandioso plano.

Carmen estava lá, linda como todos os dias. Eram seis horas da manhã e uma grosseira mochila a deixava ligeiramente corcunda. Sempre achei que os milhares de chaveiros fizessem uma considerável diferença no peso que o item fazia sobre suas costas.

Foi então que o ônibus finalmente chegou. Era hora de executar a primeira parte do plano.

Observando-a por poucos dias (os quais me esqueci de narrar a você) pude perceber algumas coisas que proporcionariam meu sucesso nesta primeira etapa.

1 – Havia uma velhota e uma aleijada que sempre chegavam pouco depois das 6:15 e pouco antes que chegasse a condução.

2 – O primeiro a entrar sempre era o mesmo, um homem alto, magro e de olhar penetrante. Também era o primeiro a saltar em todo o percurso, junto a uma criança de uns sete anos que embarcava no ponto seguinte.

3 – Carmen era gentil, e fazia questão de entrar por último.

4 – Ela sempre viajava de pé e no mesmo lugar.

Entrei no ônibus logo atrás da aleijada, fazendo questão de ajudá-la e dando a entender que estávamos acompanhados. Apressei-me em sentar ao lado do homem de olhar penetrante e, como o esperado, Carmen parou do outro lado, exatamente como fizera todos os dias em que eu a observei encantado por sua beleza e pela forma atraente como se comportava.

A cutuquei, fazendo-a virar seu belo rosto sorridente em minha direção. Um pouco extasiado, perguntei se podia levar sua mochila e agradecida, virou-se completamente, entregou-me o trambolho e preparou-se para viajar de pé a minha frente.

Três pontos se passaram, e os dois primeiros a descer o fizeram. Um deles era o homem ao meu lado, eu abri passagem para que saísse e logo depois migrei para o banco abaixo da janela.
Então olhei para os olhos dela, lancei o olhar mais convidativo que consegui manipular e, sem dizer uma só palavra, a convidei a se sentar.

Apartir daí eu precisei confiar em mim mesmo para que tudo continuasse dando certo. E eu consegui. (risos)

Fomos conversando até o final do percurso do ônibus, onde os dois desceriam para os próprios destinos. Perguntei quando ela estaria disponível, esperando levar uma patada descomunal que arruinaria meus planos, mas ela apenas respondeu que depois da escola precisava ir à sua aula no curso de inglês, e que saía de lá pelas 15:30.

Com seu número salvo na memória do celular, segui rumo ao meu destino rotineiro, esperando ansiosamente que os ponteiros do relógio formassem um ângulo de 90 graus (gostei disso).

15:30. Fui até a porta do seu curso de inglês. Ela pareceu animada em me ver, o que me deixou muito mais feliz e seguro. Perguntei se queria comer alguma coisa, ela respondeu positivamente e decidimos tomar um milk-shake (ninguém come milk-shake, mas o importante é o êxito do plano).

Ao chegarmos, parei no pequeno quiosque de milk-shake que ficava num dos cantos da entrada da lanchonete. Hora da segunda parte do plano que dependeu do acaso (e de minha evidente virilidade) para prosseguir, rsrsrsrs (ainda não sei o que me faz rir da maneira como faço no computador... Faz parecer tão imaturo).

Pedi que se sentasse e esperasse eu levar as duas bebidas na mesa, e ela o fez.

Após receber os pedidos, deixei algumas moedas caírem propositalmente no chão. Com isso,o funcionário me proporcionou tempo suficiente, abaixando para recuperá-las.

Me dirigi a mesa e a entreguei o milk-shake que pediu. Passados poucos minutos de conversa, finalmente ela cambaleou e despencou em direção ao chão.

Contendo o sorriso, eu simulei preocupação e a peguei no colo, disse a todos que era o pai dela e que tudo estava bem. A enfiei num dos táxis que estavam parados (fazia parte do plano escolher uma lanchonete em frente a um ponto de táxi), e ainda fingindo desespero, falei para que nos levasse para casa.
Finalmente chegamos e o plano atinge seu grande clímax.

Agora ela está amordaçada.

Estou apenas esperando que acorde para drenar sua doce inocência com toda a minha experiência.....

4º texto: O conto do Suicida

Author: Henrique Alvez / Marcadores:

__A cerimônia de casamento havia terminado. Os felizes recém-casados estavam a caminho do ostentoso salão de festas para desfrutar de seus queridos amigos e do iminente festejo.
__Os convidados se deleitavam com o grande banquete servido no interior do vasto salão, distribuíam-se por centenas de mesas lindamente ornamentadas e enlouqueciam em coreografias desatinadas na pista de dança, enquanto os noivos não se apresentavam.
+_Um deles estava sozinho em sua mesa, pensativo e analítico. Seus amigos não haviam sido convidados para a festa, ou, provavelmente, não tiveram coragem, vontade, ou cara-de-pau para comparecer. Estranhamente, tal homem carregava consigo uma pesada mochila, parecendo esperar o momento certo para abri-la. Trajava um terno preto, um pouco engomado de mais, que caía sobre uma pele trigueira, quase fundida a um invulgar colar de sementes da mesma cor. Seus olhos castanhos vivíssimos dançavam por todo o salão, observando a todos.
__“Os noivos estão chegando!” ouviu-se alguém murmurar, “Vamos limpar a pista para a valsa!” disse mais outro.
__Ao começar o burburinho, o homem solitário empertigou-se e, em um salto, levantou-se da cadeira, andando apressado em direção ao banheiro.
__Enquanto todos os convidados abandonavam suas mesas, interrompiam o descomedido banquete, e se aquietavam na pista de dança, o estranho homem se trocava no retrete apagado. Sobrepunha o terno preto e engomado com roupas femininas exageradas, mirabolantes e extremamente quentes. Entre elas, uma jaqueta de couro marrom, um gigantesco casaco de pele, com um gorro costurado desproporcionalmente ao resto do traje, quilos de cachecóis... Enfim, roupas grandes e grossas de mais. Não demorou muito, para que ele ficasse inidentificável e completamente osco.
__Esperou alguns minutos, e, logo, chegou aos seus ouvidos a doce vibração musical vinda da melodiosa canção orquestrada que já regia a valsa inicial dos noivos.
__Com uma calma palpável, o varão disfarçado de dama incógnita se dirigiu fantasmagoricamente a caminho da pista, mal enxergando graças ao longo capuz. Refletia em cima de tudo o que o havia movido até ali para fazer o que estava prestes a ser feito, buscando coragem para cumprir seu objetivo, e ao mesmo tempo se alimentando dos piores tipos de sentimento, que o dominavam em seu âmago.
__Ao adentrar a pista, sorrateiro, ele se acercou do casal que dançava graciosamente em meio aos convidados, trocando olhares apaixonados e se movendo sincronizados, tão leves que pareciam flutuar a cima do piso reluzente.
__Admirou-os por alguns instantes. A bela mulher vestia-se com um longuíssimo vestido branco que lambia o chão a cada passo dado. O véu transparente que cobria os cabelos castanhos, presos em um coque, escorria até as costas. Seus olhos expressivos lacrimejavam, fitando o noivo de maneira inebriante.
__Ele retribuía o olhar penetrante com a mesma intensidade, mirando-a hipnoticamente com seus profundos olhos verdes. Sua pele branquíssima parecia brilhar sob a luz alva que provinha da dançante luminária sobre eles.
__Aos poucos, os dois tiveram seu espaço invadido pela incomum figura, que se espreitou em meio a multidão até interromper a dança de vez.
__O noivo desviou seu olhar da mulher para o vulto espalhafatoso e, sem soltar a esposa, dirigiu-se ao homem:
– Está nos atrapalhando. Pode nos dar licença? – O homem encapotado apenas tornou a andar até ficar muito próximo aos dois. A mulher se irritou e, soltando-se do marido, disse:
– Não me lembro de você. Como conseguiu entrar em nossa festa? – O homem apenas permaneceu silente, ignorando a mulher completamente, ainda voltado ao nubente como se o mesmo fosse um objeto a contemplar.
– Preciso falar com você – Disse, finalmente, o homem trajando vestes femininas.
– Precisava ser justamente agora? – indagou o noivo incrédulo.
– Não tomarei muito o seu tempo.
__E dizendo isso, o homem caminhou vertiginosamente em direção ao noivo, de forma que o parolar de suas longas vestes arrastadas no chão faziam-no parecer deslizar sobre o mesmo.
__Já extremamente próximo ao noivo, ele meteu a mão em um dos bolsos do casaco de pele exagerado, retirando um objeto cintilante de dentro deste, e ocultando-o na manga das vestes logo depois. Então, sem nenhuma explicação, precipitou-se em direção ao homem, em um demorado e caloroso abraço.
– Foi uma lástima você ter destruído um laço tão forte – Sussurrou o homem para o nubente, fazendo-o parar, tamanha era sua perplexidade – Lamento que amizade, para você, não valha sequer o chão que pisa.
__E com o final da frase veio a surpresa: Em um movimento rápido, o homem revelou o objeto retirado do bolso momentos antes, que para o terror de todos, se tratava de uma afiada e agigantada adaga, que cintilava com o brilho da luz que ainda não parara de iluminar a cena.
__Com um gesto inesperado, quem a segurava cravou-a no pulmão do noivo, fazendo-o bradar intensamente e cair no chão logo após, tingindo o piso branco com a cor rubra de uma rútila e gigantesca poça de sangue.
__A cena desencadeou um grande tumulto. A pista de dança foi dominada por murmúrios e gritos de horror. Por sua vez, a noiva soltou um berro cortante e, desatrelando lágrimas como uma cachoeira, correu resvalante em direção ao marido, debruçando-se sobre seu corpo logo após golpear o homem osco fortemente, debulhando-se em lágrimas e banhando-se com o sangue do marido de maneira perturbadora.
__Após um tempo, seu pranto passou de escandaloso a retraído, e ela agora acariciava o corpo do amado, enquanto todos os convidados permaneciam em seus lugares, incapazes de intervir em tal cena tão chocante.
__O vulto heteróclito fitou a mulher, lançando-a um olhar de profunda condolência, e dirigiu-se até ela lentamente, sob os espantados e curiosos olhares dos convidados. Chegando próximo à noiva, fez outro gesto inesperado, seu braço perfurou o ar em direção a mulher, em um inacreditável sinal de apoio.
__A festa congelou. ouvia-se agora apenas o barulho externo vindo do matagal que cercava o salão. A noiva olhou perplexa para a mão estendida, depois migrando o olhar para o rosto oculto que fitava com uma Selvageria intimidadora.
__A viúva virou-se bruscamente para o vulto, correu em sua direção, e o agarrou brusca e violentamente, chorando confusa e vociferando:
– COMO VOCÊ TEM A CORAJEM DE INVADIR NOSSO CASAMENTO, MATAR O MEU NOIVO, E ME ESTENDER ESSA PATA IMUNDA, NO FINAL?! QUE TIPO DE MONSTRO DOENTE É VOCÊ?!
__Ela não o soltara por um minuto, se debatia e o agredia selvagemente, ao mesmo tempo em que ele apenas recebia a agressão, calado.
__Em meio aos golpes, insultos e gritos da mulher, o homem sacudiu a cabeça a fim de fazer com que o capuz deslizasse sobre a mesma. Quando seu rosto se tornou visível, os murmúrios de horror e surpresa invadiram o salão mais uma vez. Ele, por sua vez apenas tocou o peito com oqueixo, e com uma profunda expressão de dor, deixou escorrer uma lágrima pelo rosto, dizendo:
– Você vai entender os meus motivos...
BANG!
__Ouviu-se um ensurdecedor fragor vindo do desconhecido, provavelmente do matagal. O homem disfarçado apenas parou perplexo enquanto a mulher o fitava apavorada. Ele contemplou o próprio estômago, observando o orifício sangrento aberto no mesmo pela bala que acabara de atingi-lo. Ela, acompanhou seu olhar, horrorizando-se com a fresta brilhante que se abrira no ventre à sua frente.
__Os dois se encararam com os olhos esbugalhados. Ela soltou-o atemorizada, deixando-o esparramar-se, inerte e perecido no chão, respingando sangue ao se chocar com a poça púrpura recém formada.

Henrique Alvez

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