Faces 2

Author: Henrique Alvez / Marcadores:


Ela Ofegou.
Os olhos pararam sobre o teto mais uma vez. Tudo estava escuro agora, e a noite parecia barulhenta demais para ser noite de fato.
Levantou da cama mais uma vez. Com cuidado para não pisar em qualquer coisa que pudesse fazer barulho e acordar as crianças...
As crianças...
Seu sonho não fora nada agradável de se ver, nada comum também, mas mesmo assim trazia um estranho conforto a seu íntimo soturno. Nele, seus dois filhos se dilaceravam enquanto a babá apenas assistia, os olhos vidrados e marcas de unhas rasgando o peito em carne viva.
Após repetir o que fizera em sonho, antes de testemunhar a cena que encerrara o delírio, ela dirigiu-se em direção ao quarto dos filhos.
Lá eles dormiam como dois pequenos anjos, repletos de candura, mesmo sob os roncos quase ensurdecedores da babá, que dormia de qualquer jeito em uma cadeira, ao lado do berço de um dos gêmeos.
"Acorde, Sara", dizia a mulher "Você não deveria dormir aqui, sua família ficará preocupada"
A jovem negra abriu os olhos completamente atordoada, e secando os lábios umedecidos com a manga do casaco, levantou-se em um salto desajeitado, parando de chofre segundos depois, as mãos à cabeça.
"Que horas são?", perguntou
"Já passam das duas" a mulher respondeu, tocando um dos ombros da babá.
"Cu, meu marido vai me esquartejar"
"Não diga besteiras." Disse a mulher "Você dorme aqui, hoje"
A mulher negra balançou a cabeça completamente irredutível, franzindo a testa da maneira mais incisiva que alguém poderia conseguir.
"A senhora não entende, preciso voltar para casa ainda hoje, ou ele realmente vai me bater."
A mãe ficou confusa e atordoada, não podia estar ouvindo aquilo. Não iria permitir que nada acontecesse àquela mulher que atualmente lhe era uma das poucas amigas que tinha. Não permitiria que ninguém a violentasse de nenhuma maneira.
"Isso não vai acontecer" disse ela, tocando agora o rosto da amiga. "Eu te levo pra casa."
E sem deixar a babá protestar, ela tirou os irmãos do berço e colocou-os em suas cadeiras, no carro que estava estacionado ao lado de fora da residência decadente. Ainda de pijamas, procurou as chaves do carro na bolsa e não se demorou em entrar no veículo, levando a babá ao seu lado.
Sob muxoxos infantis e ininteligíveis, as duas mulheres cruzaram um lado inteiro da cidade.
Após subir boa parte de um morro, chegaram a uma favela precária e de atmosfera triste, As duas desceram do carro.
Chegando a uma casa de tijolos muito mal conservada e localizada, a babá indicou-a como sua. A campainha soou.
Após alguns instantes de espera a porta se abriu, e os olhos da cansada mulher não acreditavam no que viam. Seu coração parecia saltar pela boca, o corpo ficou quente de cima a baixo, e os olhos queimavam em lágrimas.

Era a face do mal.

continua....

Faces 1

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A mulher se deitou na cama, largada e cansada, tentando se esquecer de que apartir da manhã seguinte toda a rotina daquele dia enfadonho e aparentemente duplo se repetiria assim como acontecia há 20 anos.

Olhando para o teto acima do crânio dolorido, ela apenas conseguia pensar num vazio abarrotado de coisas. Sua mente começava a reproduzir em sons tudo aquilo de mais prosaico que vinha acontecendo, e desejava loucamente que conseguisse descansar ao menos um pouco, coisa que nem afundada em um colchão d'água ela conseguia...

Ao mesmo tempo, ela sabia que o dia ainda não acabara, afinal ela tinha duas bocas para alimentar. Na sala com a babá, estavam suas duas antíteses ambulantes que completariam três anos de idade na semana seguinte, e que a faziam lembrar daquilo que fora um dos únicos fatos fora de sua desgastada rotina, mas que não valia ser lembrado antes da hora. Era preferível recordar apenas quando seria inevitável

Tarde de mais. Aquilo já tomara conta de sua cabeça. Cada cena daquele dia que marcara sua vida agora atropelava como um caminhão as lembranças de seu dia tórrido e comum.

Na tentativa de apagar tudo aquilo, ela desceu os pés da cama, tocando-os no piso gelado do quarto, à mostra graças ao carpete que um dos gêmeos rasgara, precisava tirar aquele cheiro acre das mãos, ela, mais que nenhuma outra pessoa, sabia como dinheiro não proporcionava grandes prazeres ao olfato de alguém.

Aquela que a encarava no espelho não era nada bonita. Os olhos que em um passado distante apresentariam um tom azulado e brilhante, estavam apagados, acinzentados e a ponto de fechar, quisera ela para sempre. A pele branca estava ressecada, talvez uma árvore tivesse o casco mais suave que seu rosto, e os cabelos, como consequência de anos presos atrás da cabeça por qualquer coisa elástica, começavam a rarear acima da testa volumosa e terrivelmente oleosa.

Saindo de um banho demorado, a mulher trocou o pijama que a esperava em cima da cama e se dirigiu à sala de estar. No caminho, ela pôde testemunhar à distância uma cena que poderia ser desesperadora, mas que assustadoramente a proporcionava algum alívio.

continua...

Vitral

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Penso, logo existo
Existo, logo sinto
Sinto, logo sofro
Sofro, logo minto
Minto, logo morro

Morro logo durmo
Durmo logo sonho
Sonho logo viajo
Viajo logo o encontro

E ao encontrar-te
logo o vejo
Rosto de vitral
Multicolor
Da cor da minha dor
Multiforme
De minha vida, meu senhor

E é ao contemplar a hórrida superfície
Que percebo o quão incógnito é o ser
O quão lúcido é o sofrer
E o quão desnecessário é o viver

Pois se a vida é feita de boas lembranças
Quando o verei em meio a flores
Nesse tempo sem valores
Onde para sempre se foi a esperança?
Que recordações trago comigo?
E que se vê nesse espelho de cores?
Apenas cores.

Mas de que adianta as cores
Se sozinhas se encontram?
Seu terno contexto foi perdido
Seu desejo foi para sempre rompido
E para nada mais podem dar qualquer sentido.

É nesse rosto
Rosto de vitral
Janela multicolor
Mas sem nenhuma cor
Que apenas enxergo a escuridão
De uma vida perdida
Que mesmo envolta à cores
Só consegue aguardar a própria partida.

Por: Henrique Alvez

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