Estatutário

Author: Henrique Alvez / Marcadores:

É pedra bruta
Alquebra resistente
Fortaleza dissoluta
Opaco reluzente

Instrumento inexorável
Mão nua
Sem arma palpável
Esperança
Vã usança tua

Acaso é o amorfo rosto
Emergente desgosto
Pois figura legítima
Conserva-se Latente

Agora choro, pobre vítima
Estatutário impotente
Aceito-a maldita sina
Abandono a face que se esconde
Como cômoro em neblina

Deito-me sobre os seixos
Folgados motejantes
Aguardando o desfecho
Retorsão cruciante

Nobre seja novo ofício
Retângulo entalhado
Crava-se em solo sagrado
Aguardando futuro exício



Henrique Alvez

Ciconia oleracea

Author: Henrique Alvez / Marcadores:


Eram duas crianças.
O menino mais baixo que a menina, mas ela era ligeiramente mais gorda. Não como uma bola, mas de uma forma a deixá-la aparentemente amigável a olhos alheios.

Os dois conversavam banalidades infantis enquanto ele a empurrava no único balanço que a escolinha pública podia fornecer a seus pequenos alunos.

Ambos deviam ter uns seis anos. Ele não gostava de carrinhos ou futebol, nem ela de bonecas ou pega-pega. Por esse motivo, passavam a maior parte do tempo juntos, sempre falando sobre as mesmas coisas, empolgados em rotineiras discussões que sempre acabavam em contradições típicas de criança.
"Você parece menina", riu a garotinha, enquanto o garoto continuava a impulsioná-la.
"Cala sua boca", encrespou o garoto que, mesmo ofendido, continuava a brincadeira, sem argumentos.
"Tem medo de escuro", continuou a menina "Só menina tem medo do escuro."
"Então você também tem medo?"
"Eu não!" Respondeu ela, enfaticamente.
"Então é menino."
"Olha, nem sou"
"É sim. Se eu sou menina por que tenho medo do escuro, você é menino por que não tem."

A gordinha permaneceu em silêncio, desarmada diante da conclusão do garoto.
"Como você nasceu?" Perguntou a garota, depois de um breve instante de profundo silêncio.
"Minha mãe disse que papai colocou uma sementinha na horta lá de casa, daí cresceu um repolho diferente e eu tava lá dentro.
"Que nojo!", exclamou a garotinha, achando graça.
"Você não nasceu assim?”, Espantou-se ele.
"Minha mãe me disse que a cegonha me trouxe numa cesta."
"Quem é cegonha?"
"Acho que é um bichinho"
"Então você veio de um bichinho e eu de um repolho?" perguntou o garoto, entregando-se às gargalhadas.
"Acho que é por isso que a gente é tão diferente"
"Eu acho isso muito errado.”, ele parecia confuso “Pra mim, todo mundo tinha que nascer de um jeito só."
"Se fosse tudo de um jeito só não ia ser legal", grunhiu a menina "Imagina se todo mundo nascesse de um repolho?"
"Seria melhor do que todo mundo nascer de uma cegonha... Sabe, você deve ser metade cegonha" Disse o garoto, terminando com mais uma gargalhada.
"Então você é metade repolho", concluiu ela.
"Acho que é por isso que gosto tanto de repolho..."
"Crianças!", gritou uma voz feminina muito aguda, chamando-os de volta.

Então, ela pulou do balanço, os dois deram-se as mãos e saíram rumo à salinha. Ele achando que era uma menina repolho, e ela crente que era um menino bicho.














Henrique Alvez.

Faces 3

Author: Henrique Alvez / Marcadores:

Esta é a parte final, por tanto não saia lendo de uma vez ou você não vai entender absolutamente nada.
Há mais duas partes da história.
Está dividido porque fiquei com vontade de dividir. (mentira, está dividido porque sei que todos são preguiçosos e não leriam o texto se ele fosse postado de uma vez só, além de um motivo a mais, que você que realmente lê os textos, vai entender no final.)


Faces 3

O homem também a reconheceu, seus olhos ganharam o dobro do tamanho temporariamente, e logo depois, sua expressão tornou a ganhar um ar frio de momentos anteriores. Por um momento os dois ficaram parados se encarando. Ele estava imóvel, a mão ainda segurando a maçaneta da porta que antes abrira. Ela tremia dos pés às pontas dos cabelos bagunçados, os olhos embaçados por lágrimas que já não mais podiam ser contidas.

Lentamente ela virou-se e dirigiu-se em direção ao carro ali estacionado, os primeiros sinais de seu pranto escorrendo pelo rosto cansado que não desgrudava o olhar do chão a caminho do que a tiraria dali.

Dia seguinte.
"O que houve ontem?", perguntava a babá que agora almoçava junto à patroa na mesa da cozinha mal iluminada.
"Nada que valha a pena ser lembrado" Disse a mulher. Seus olhos tinham o cansaço acentuado agora. Estavam inchados de tanto chorar.
"É evidente que vale a pena", insistiu a moça. "A senhora partiu aos prantos, e repentinamente."
"Não deveria ter feito isso, me desculpe"
"Vocês se conhecem?"
A pergunta da empregada atuara como um golpe monstruoso no estômago da mulher, que agora via mais uma vez em sua cabeça, cenas que ela não mais suportava lembrar-se. A cabeça caiu sobre o peito, e junto com ela uma nova lágrima.
"Não.", respondeu ela, soluçante.

Por um momento, a moça negra não soube o que dizer, mas precisava descobrir o que se passava com a patroa, que acima de tudo era uma boa amiga para ela, e a ajudava sempre que precisava.
"Tudo bem não querer falar agora."
A mulher não respondeu.
"Tem alguma coisa que eu possa fazer, antes que a senhora saia?", perguntou, em uma última tentativa.
"Volte ao seu trabalho." Respondeu a mulher ainda cabisbaixa e melancólica.

Mas foi enquanto a babá se levantava e dirigia-se ao quarto dos gêmeos, que uma idéia saltou a perturbada mente da patroa. Um ato de coragem que faria justiça a tudo o que ela passara durante os últimos três anos. Seria um ponto final simbólico que ela esperava amenizar um pouco a dor que as terríveis e incessantes lembranças lhe causavam.
"Sara, espere.", chamou a mulher. "Me diga o nome do seu marido."
"Samuel Pereira"
"Obrigada"

Ela saiu para o trabalho. Mas antes, precisava por sua idéia em prática, agora que ela tinha o que precisava só lhe faltava a coragem, e isso ela achava que tinha o suficiente.
Caminhou pelas ruas frias da cidade em busca de um orelhão.
Finalmente após encontrar um, parou em frente a ele e, sem pensar de mais, começou a discar.
"É da delegacia da mulher?"
A voz ao outro lado da linha respondeu positivamente. Ela respirou fundo e continuou
"Eu gostaria de fazer uma denúncia..."
A mulher do outro lado pediu que ela prosseguisse
"Faz três anos que aconteceu, mas tudo pode ser provado por um diário que certamente ainda se encontra na residência do autor do crime"
Pediram que dissesse seu nome e do que se tratava o crime, para que depois fossem fornecidos os detalhes.
Ela encheu os pulmões mais uma vez e respondeu:
"Meu nome é Carmen Dias. Quero meu estuprador preso"

Sobrevivente

Author: Henrique Alvez / Marcadores:

Sobrevivente queria me ver
Sobrevivente queria conversar
Sobrevivente Parecia sofrer
Precisava comigo estar

Sobrevivente não pôde me ver
Sem um grande sorriso abrir
Sobrevivente não quis me abraçar
Para seu apreço não admitir

Sobrevivente quis se sentar
Para melhor conversar
Sobrevivente começou a falar
E eu a me assustar

Sobrevivente vai se matar
Não aguenta mais amar
Sobrevivente quer morrer
Não quer mais sobreviver

Sobrevivente se levantou
E eu junto me ergui
Sobrevivente me parou
Mas eu a queria impedir

Sobrevivente fugiu
Sua morte tinha hora
Em desespero partiu
E eu a seguindo, rua afora

Sobrevivente parou
O abismo era impiedoso
Sobrevivente me segurou
Em um beijo cauteloso

Sobrevivente se jogou
Sobrevivente se matou
Sobrevivente morreu
Não mais sobreviveu

Querido diário, maldito proprietário.

Author: Henrique Alvez / Marcadores: ,


Querido diário...

Hoje foi mais um dia ordinário e desprovido de pasmos, porém deveras fecundo, pois tudo correu como o esquematizado.

É por isso que lhe digo (Por mais que um caderno não possa absorver bons conselhos): Planejar é uma arte e versá-la é o ato mais sensato que pode ter um ser humano.

Pois bem, se virar a página saberá o que pretendia que se incidisse hoje, por isso irei direto à execução de meu grandioso plano.

Carmen estava lá, linda como todos os dias. Eram seis horas da manhã e uma grosseira mochila a deixava ligeiramente corcunda. Sempre achei que os milhares de chaveiros fizessem uma considerável diferença no peso que o item fazia sobre suas costas.

Foi então que o ônibus finalmente chegou. Era hora de executar a primeira parte do plano.

Observando-a por poucos dias (os quais me esqueci de narrar a você) pude perceber algumas coisas que proporcionariam meu sucesso nesta primeira etapa.

1 – Havia uma velhota e uma aleijada que sempre chegavam pouco depois das 6:15 e pouco antes que chegasse a condução.

2 – O primeiro a entrar sempre era o mesmo, um homem alto, magro e de olhar penetrante. Também era o primeiro a saltar em todo o percurso, junto a uma criança de uns sete anos que embarcava no ponto seguinte.

3 – Carmen era gentil, e fazia questão de entrar por último.

4 – Ela sempre viajava de pé e no mesmo lugar.

Entrei no ônibus logo atrás da aleijada, fazendo questão de ajudá-la e dando a entender que estávamos acompanhados. Apressei-me em sentar ao lado do homem de olhar penetrante e, como o esperado, Carmen parou do outro lado, exatamente como fizera todos os dias em que eu a observei encantado por sua beleza e pela forma atraente como se comportava.

A cutuquei, fazendo-a virar seu belo rosto sorridente em minha direção. Um pouco extasiado, perguntei se podia levar sua mochila e agradecida, virou-se completamente, entregou-me o trambolho e preparou-se para viajar de pé a minha frente.

Três pontos se passaram, e os dois primeiros a descer o fizeram. Um deles era o homem ao meu lado, eu abri passagem para que saísse e logo depois migrei para o banco abaixo da janela.
Então olhei para os olhos dela, lancei o olhar mais convidativo que consegui manipular e, sem dizer uma só palavra, a convidei a se sentar.

Apartir daí eu precisei confiar em mim mesmo para que tudo continuasse dando certo. E eu consegui. (risos)

Fomos conversando até o final do percurso do ônibus, onde os dois desceriam para os próprios destinos. Perguntei quando ela estaria disponível, esperando levar uma patada descomunal que arruinaria meus planos, mas ela apenas respondeu que depois da escola precisava ir à sua aula no curso de inglês, e que saía de lá pelas 15:30.

Com seu número salvo na memória do celular, segui rumo ao meu destino rotineiro, esperando ansiosamente que os ponteiros do relógio formassem um ângulo de 90 graus (gostei disso).

15:30. Fui até a porta do seu curso de inglês. Ela pareceu animada em me ver, o que me deixou muito mais feliz e seguro. Perguntei se queria comer alguma coisa, ela respondeu positivamente e decidimos tomar um milk-shake (ninguém come milk-shake, mas o importante é o êxito do plano).

Ao chegarmos, parei no pequeno quiosque de milk-shake que ficava num dos cantos da entrada da lanchonete. Hora da segunda parte do plano que dependeu do acaso (e de minha evidente virilidade) para prosseguir, rsrsrsrs (ainda não sei o que me faz rir da maneira como faço no computador... Faz parecer tão imaturo).

Pedi que se sentasse e esperasse eu levar as duas bebidas na mesa, e ela o fez.

Após receber os pedidos, deixei algumas moedas caírem propositalmente no chão. Com isso,o funcionário me proporcionou tempo suficiente, abaixando para recuperá-las.

Me dirigi a mesa e a entreguei o milk-shake que pediu. Passados poucos minutos de conversa, finalmente ela cambaleou e despencou em direção ao chão.

Contendo o sorriso, eu simulei preocupação e a peguei no colo, disse a todos que era o pai dela e que tudo estava bem. A enfiei num dos táxis que estavam parados (fazia parte do plano escolher uma lanchonete em frente a um ponto de táxi), e ainda fingindo desespero, falei para que nos levasse para casa.
Finalmente chegamos e o plano atinge seu grande clímax.

Agora ela está amordaçada.

Estou apenas esperando que acorde para drenar sua doce inocência com toda a minha experiência.....

Faces 2

Author: Henrique Alvez / Marcadores:


Ela Ofegou.
Os olhos pararam sobre o teto mais uma vez. Tudo estava escuro agora, e a noite parecia barulhenta demais para ser noite de fato.
Levantou da cama mais uma vez. Com cuidado para não pisar em qualquer coisa que pudesse fazer barulho e acordar as crianças...
As crianças...
Seu sonho não fora nada agradável de se ver, nada comum também, mas mesmo assim trazia um estranho conforto a seu íntimo soturno. Nele, seus dois filhos se dilaceravam enquanto a babá apenas assistia, os olhos vidrados e marcas de unhas rasgando o peito em carne viva.
Após repetir o que fizera em sonho, antes de testemunhar a cena que encerrara o delírio, ela dirigiu-se em direção ao quarto dos filhos.
Lá eles dormiam como dois pequenos anjos, repletos de candura, mesmo sob os roncos quase ensurdecedores da babá, que dormia de qualquer jeito em uma cadeira, ao lado do berço de um dos gêmeos.
"Acorde, Sara", dizia a mulher "Você não deveria dormir aqui, sua família ficará preocupada"
A jovem negra abriu os olhos completamente atordoada, e secando os lábios umedecidos com a manga do casaco, levantou-se em um salto desajeitado, parando de chofre segundos depois, as mãos à cabeça.
"Que horas são?", perguntou
"Já passam das duas" a mulher respondeu, tocando um dos ombros da babá.
"Cu, meu marido vai me esquartejar"
"Não diga besteiras." Disse a mulher "Você dorme aqui, hoje"
A mulher negra balançou a cabeça completamente irredutível, franzindo a testa da maneira mais incisiva que alguém poderia conseguir.
"A senhora não entende, preciso voltar para casa ainda hoje, ou ele realmente vai me bater."
A mãe ficou confusa e atordoada, não podia estar ouvindo aquilo. Não iria permitir que nada acontecesse àquela mulher que atualmente lhe era uma das poucas amigas que tinha. Não permitiria que ninguém a violentasse de nenhuma maneira.
"Isso não vai acontecer" disse ela, tocando agora o rosto da amiga. "Eu te levo pra casa."
E sem deixar a babá protestar, ela tirou os irmãos do berço e colocou-os em suas cadeiras, no carro que estava estacionado ao lado de fora da residência decadente. Ainda de pijamas, procurou as chaves do carro na bolsa e não se demorou em entrar no veículo, levando a babá ao seu lado.
Sob muxoxos infantis e ininteligíveis, as duas mulheres cruzaram um lado inteiro da cidade.
Após subir boa parte de um morro, chegaram a uma favela precária e de atmosfera triste, As duas desceram do carro.
Chegando a uma casa de tijolos muito mal conservada e localizada, a babá indicou-a como sua. A campainha soou.
Após alguns instantes de espera a porta se abriu, e os olhos da cansada mulher não acreditavam no que viam. Seu coração parecia saltar pela boca, o corpo ficou quente de cima a baixo, e os olhos queimavam em lágrimas.

Era a face do mal.

continua....

Faces 1

Author: Henrique Alvez / Marcadores:


A mulher se deitou na cama, largada e cansada, tentando se esquecer de que apartir da manhã seguinte toda a rotina daquele dia enfadonho e aparentemente duplo se repetiria assim como acontecia há 20 anos.

Olhando para o teto acima do crânio dolorido, ela apenas conseguia pensar num vazio abarrotado de coisas. Sua mente começava a reproduzir em sons tudo aquilo de mais prosaico que vinha acontecendo, e desejava loucamente que conseguisse descansar ao menos um pouco, coisa que nem afundada em um colchão d'água ela conseguia...

Ao mesmo tempo, ela sabia que o dia ainda não acabara, afinal ela tinha duas bocas para alimentar. Na sala com a babá, estavam suas duas antíteses ambulantes que completariam três anos de idade na semana seguinte, e que a faziam lembrar daquilo que fora um dos únicos fatos fora de sua desgastada rotina, mas que não valia ser lembrado antes da hora. Era preferível recordar apenas quando seria inevitável

Tarde de mais. Aquilo já tomara conta de sua cabeça. Cada cena daquele dia que marcara sua vida agora atropelava como um caminhão as lembranças de seu dia tórrido e comum.

Na tentativa de apagar tudo aquilo, ela desceu os pés da cama, tocando-os no piso gelado do quarto, à mostra graças ao carpete que um dos gêmeos rasgara, precisava tirar aquele cheiro acre das mãos, ela, mais que nenhuma outra pessoa, sabia como dinheiro não proporcionava grandes prazeres ao olfato de alguém.

Aquela que a encarava no espelho não era nada bonita. Os olhos que em um passado distante apresentariam um tom azulado e brilhante, estavam apagados, acinzentados e a ponto de fechar, quisera ela para sempre. A pele branca estava ressecada, talvez uma árvore tivesse o casco mais suave que seu rosto, e os cabelos, como consequência de anos presos atrás da cabeça por qualquer coisa elástica, começavam a rarear acima da testa volumosa e terrivelmente oleosa.

Saindo de um banho demorado, a mulher trocou o pijama que a esperava em cima da cama e se dirigiu à sala de estar. No caminho, ela pôde testemunhar à distância uma cena que poderia ser desesperadora, mas que assustadoramente a proporcionava algum alívio.

continua...

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